ENTREVISTA

Entrevista
com o Professor CARLOS AMC CUNHA, coordenador do site JUDOBRASIL – http://www.judobrasil.com.br/
; atleta da seleção brasileira de judô entre
1976 e 1981; campeão dos Jogos Pan-americanos (Porto Rico/79);
integrante da equipe olímpica em Moscou/80; bi-campeão
sul-americano; campeão pan-americano; integrante da 1ª equipe
completa a estagiar no Japão; participante da 1ª Copa
Jigoro Kano (1978) com vários estágios de treinamento
no Japão e Europa; economista formado pela Universidade de
Cambridge (Inglaterra); Master Degree e em Economia pela Universidade
de Cambridge; auditor, programador e web designer.
Como o Professor analisa o desenvolvimento do Judô Nordestino
em comparação com o Sul e Sudeste do Brasil?
Muito aquém do real potencial que a região já demonstrou
com, apenas, um pouco de incentivo. Podemos analisar, em especial,
dois estados que vão ilustrar bem o que quero dizer: Paraíba
e Piauí.O Piauí, todos sabem, é a, digamos, “base” da
CBJ no nordeste; portanto, recebe especial atenção:
sediando e promovendo mais competições, cursos, treinamentos
de campo, técnicos daquele Estado dirigindo seleções
nacionais de base e por aí vai. Com isso vieram os resultados
que eles, inquestionavelmente, conquistaram.
Por questões políticas, a Paraíba, por sua vez,
procurou outro caminho e acertou quando optou pelo estabelecimento
de uma parceria com a Federação Paulista. Gostemos,
ou não, São Paulo ainda é, disparado, o maior
centro de desenvolvimento e treinamento de Judô do país.Voltando,
os estágios dos paraibanos tiveram como resultado os citados
pelo presidente da federação paraibana Simbaldo Pessoa,
que vocês já entrevistaram.
Enfim, não há como evoluir sem se aprofundar; estudar
e conhecer os fundamentos de ensino e treinamento. Sem isso, fica
muito difícil construir uma carreira sólida e duradoura.
Por mais que treine, o atleta limitado tecnicamente tem uma longevidade
menor daquele que é técnico, que tem base. E isso não é culpa
dos técnicos ou dos professores. Você não tem
como ensinar uma coisa que você não conhece. Por mais
que o técnico estude e se prepare, é indiscutível
que ele crescerá muito mais se puder trocar idéias
e avaliar seu trabalho por comparação, quero dizer,
colocando seus atletas a prova: treinando e competindo. E isso, só o
intercâmbio pode proporcionar: logo, logo você sente
os resultados.
Receber e ser recebido; ou seja, visitar e ser visitado. Deu para
entender?Tem o pessoal “do gargarejo” que pode perguntar: “Mas
só duas ou três semanas? Isso não vão
mudar nada”. Fosse isso, estágios internacionais que
duram uma ou duas semanas não fariam toda a diferença
para um competidor de alto-rendimento. Guardadas as proporções,
por que é, então, que estágios em centros mais
fortes não trariam resultados para equipes chamadas de base?
Refiro-me, principalmente, ao pré-juvenil e juvenil. Sobre
as categorias inferiores, não há tanta necessidade
de troca direta; bastaria que os técnicos e professores fizessem
estágios de aprendizagem e esclarecimento de dúvidas.
Isso ajudaria muito.
Discutir e aprender são sempre coisas positivas. A Paraíba
e o Piauí, entre mais dois ou três do norte-nordeste,
já comprovaram isso.
Nas
classes infanto/pré-juvenil e juvenil, estamos vendo
vários atletas do Nordeste, notadamente do Maranhão,
Rio Grande do Norte e Paraíba conseguirem vitórias
expressivas em Campeonatos de âmbito Nacional. A que se deve
isto, e por que não conseguimos tais resultados nas demais
categorias?
Essa troca, que eu mencionei na resposta anterior, é a responsável.
Os mais novos, portanto, na fase de construção de suas
bases são os primeiros a mostrar resultados. Recebendo informações
atualizadas e, digamos, “de ponta”, eles competem praticamente
de igual para igual com os atletas dos grandes centros. Repare que
os juniores e seniores já encontram mais dificuldade. É triste
dizer, mas, para eles, é quase impossível alcançar
uma vaga olímpica.
Para os mais novos a coisa é diferente: têm chances
reais de brigarem daqui há duas olimpíadas. A coisa
não acontece assim, da noite para o dia. São Paulo,
por exemplo, tem federação há exatos 50 anos.
Mas o Judô já era praticado nas colônias japonesas
muito antes disso: há quase 90 anos, se não me falha
a memória.
Não existe segredo: é estudar, treinar e competir.
Da mesma forma que um pai procura sempre a melhor escola para seus
filhos, os presidentes de federações do nordeste, conscientes
de que foram escolhidos para desenvolver o Judô dos seus estados,
deveriam ampliar seus horizontes. E, hoje, só existem duas
opções: São Paulo ou a CBJ.
O problema com CBJ é o custo pessoal e político: muito
alto. A Paraíba já demonstrou que é fácil
se aproximar de São Paulo. Eles têm muita opção:
estrutura para receber, locais de treinamento com padrão internacional,
academias para serem visitadas, o Projeto Futuro, que revelou dezenas
de campeões internacionais, etc..Ao mesmo tempo, São
Paulo tem, também, um time enorme de professores e técnicos
das mais variadas áreas do Judô – base e fundamentos,
competição de alto-rendimento, arbitragem, kata, condicionamento
físico, etc. – que estão disponíveis para
viajar e ministrar cursos no norte-nordeste. Eles têm para
todo gosto: do iniciante ao olímpico. É só escolher.
São Paulo é “um país”. E tem demonstrado
que é “um país amigo”.
O nordeste tem um potencial absurdo; só os nordestinos não
enxergam isso. Ou enxergam e, daí, existem duas classes diversas:
os que têm medo e se calam e os que estão em guerra
com as federações. Isso tudo é muito ruim, só atrapalha
o crescimento. Vocês têm que mudar a coisa no voto tomando
cuidado para “não trocar seis por meia-dúzia”:
têm que colocar uma pessoa comprometida com essas idéias.
Pernambuco
tem sofrido uma forte migração de atletas
para outros Estados, enfraquecendo mais ainda o tão combalido
Judô Pernambucano. A administração Mota tem sido
um desastre, tanto no que se refere à prática do esporte,
quanto no sentido filosófico do judô. Como o Professor
analisa o Judô de Pernambuco?
Dá vontade de “pular” essa pergunta; mas vamos
lá. O Mota nem merece comentário: não vai entender
nada do que estamos falando. “Filhotinho de Mamede”,
ele só entende a força, a violência e o interesse.
Enquanto essa cara continuar por aí, a coisa vai continuar
complicada.Para mim, a primeira (e maior) perda de Pernambuco foi
o desligamento do Prof. Tadao Nagai da federação.Mesmo
distante, tenho certeza que a Liga Pernambucana tem um nível
técnico e filosófico bem mais alto que o da federação.Quem
sabe essa migração não seja dirigida só para
outros estados; deve estar ocorrendo, também, para a Liga.
Sinceramente, se eu fosse pai de atleta iniciante em Pernambuco,
optaria pela Liga para construir uma base consistente para o meu
filho. Quando chegasse na fase de competir, pensaria no que fazer.
Talvez, a migração fosse a saída. É triste,
mas é assim.Ou os técnicos e professores – que
representam o colégio que elege o presidente – se conscientizam
e dão um jeito no Mota, ou, a médio prazo, vão
sentir as conseqüências. As desistências e migrações
vão direto nos bolsos deles: menos praticantes, menos mensalidades,
menos clubes e academias, menos receita. É simples, não
sei como é que eles não vêem isso. Há muitos
anos só o Mota se dá bem. Isso precisa parar.
O
JUDOBRASIL foi e é um forte instrumento de divulgação
do Judô, bem como de combate às irregularidades, injustiças
que são cometidas. Que conselhos poderiam ser dados aos judocas,
pais e técnicos para mudar o quadro de Pernambuco?
Que procurem estudar e diversificar seus treinamentos. O intercâmbio
que nos comentamos, até agora, é, ao meu ver, a solução.
Enfim,
que perspectivas os Pernambucanos pode esperar do Judô?
Tudo ou nada. Tudo – até atletas olímpicos – se
o Mota sair. E nada se o Mota continuar; é só isso.Muito
obrigado pelo convite e parabéns pela iniciativa e coragem.
"
DA ERA MAMEDE, SÓ FALTA MOTA!"
Postado
por Pietro Garcia às 1:39 PM 1
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